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06/12/2018 - 17:57 - Atualizado em 06/12/2018 - 20:38
Dissertação da Psicologia analisa o discurso do cidadão de bem
A pesquisa se sustenta na teoria e na clínica psicanalítica freudiana
por Autor: 
João Pedro Rabelo

Ataque Automático, quadro de Milton Kurtz que esteve na exposição Queermuseu no Santander Cultural, um dos eventos que inspirou a pesquisa. (Foto: Divulgação)

A expressão “cidadão de bem” se popularizou para atribuir a uma pessoa características como as de um sujeito que valoriza a família, a moral e os bons costumes. Mas e se esse discurso se tornasse objeto de estudo? O psicólogo Artur Julio de Albuquerque Junior propôs a análise dessa corrente discursiva em sua defesa de mestrado, com a dissertação O discurso do cidadão de bem e a lógica do supereu, que aconteceu no primeiro semestre deste ano, no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

A proposta da pesquisa é analisar, baseada na teoria e na clínica psicanalítica, uma possível articulação entre esse discurso cotidianamente utilizado e o agente psíquico que Freud denomina “supereu”, responsável pelo imperativo moral. A abordagem de Albuquerque não se baseia em um indivíduo em específico para análise, mas sim na lógica social com a qual muitas pessoas se sentem identificadas. O estudo concluiu que o discurso do “cidadão de bem” revela o ímpeto em sobrepor determinados ideais sobre outros que se mostram diferentes da norma de conduta social.

A pesquisa

Albuquerque desenvolveu a pesquisa baseando-se na alegoria do cidadão de bem e na repercussão que esse discurso tem gerado no meio social. Para propor suas análises, tomou uma pessoa como uma entidade discursiva, alguém que possuísse seus próprios ideais morais e posturas subjetivas. Essa pessoa, como qualquer outra, também possui dentro de si o agente psíquico que Freud denomina “supereu”. O psicólogo conta que a definição desse conceito pode ser algo “paradoxal”.

“O supereu comanda que obedeçamos às leis, mas também, na sua condição mais elementar, é o que comanda que desobedeçamos a essas mesmas leis. Tentando dizer de maneira bem didática, o supereu é aquela voz interna que nos diz para não fazermos aquilo que julgamos ser errado e, no entanto, é também aquela mesma voz interna que nos diz para fazermos aquilo que queremos, ainda que julguemos que seja errado”, explica .

Mas, afinal, qual a relação entre o “supereu” e o discurso do cidadão de bem? Albuquerque complementa que “todas as pessoas possuem um supereu. Alguns mais rígidos e severos, outros um pouco mais maleáveis. A contradição é que quanto maior for o desejo de um sujeito para  fazer algo ‘amoral’ [moralmente neutro], mais rígido será o seu supereu para conter esse desejo e mais moralista esse sujeito tenderá a se tornar”.

No estudo do psicólogo, a lógica de funcionamento do “supereu” se apresenta de forma oportuna para uma observação a respeito de como a dinâmica do cidadão de bem reflete em comportamentos que são, muitas vezes, pautados pela defesa da família, da moral e dos bons costumes. “Esse discurso tem reverberações políticas que resultam no aumento das desigualdades sociais, na legitimação de preconceitos e até mesmo em atos de violência contra aqueles que, por diversas razões, não se enquadram na cartilha moral dos bons costumes”, argumenta.

A importância da discussão dessa temática, segundo Albuquerque, está ligada ao fato de que a dissertação propõe-se a pensar sobre um dos fundamentos discursivos que sustentam a atual configuração social e política da sociedade contemporânea. “O discurso do cidadão de bem não é meramente uma bandeira de moral. É, fundamentalmente, um interventor político que resulta em efeitos sociais de maneira cada vez mais preponderante. Refletir criticamente sobre a lógica desse discurso é uma forma de marcar um ato de resistência, de fazer valer a importância da democracia colocada acima de tudo e do respeito às diferenças acima de todos”.

As motivações

A pesquisa, orientada pelo professor João Luiz Leitão Paravidini, no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFU, encontrou motivações na iniciativa de Albuquerque em entender essa voz social sepereuoica e o que ela diz. Além disso, buscou-se analisar as reações manifestadas em diversas mídias sociais dos ditos “cidadãos de bem” diante de dois acontecimentos: a exposição “Queermuseu”, apresentada pelo Santander Cultural na cidade de Porto Alegre, e a performance “La Bête”, realizada no Museu da Arte Moderna em São Paulo.

“Esses dois acontecimentos do campo da arte me serviram de importantes analisadores pelos quais o discurso do cidadão de bem pôde irromper nas diversas mídias sociais em uma de suas modalidades mais violentas e repressoras. Tomar em análise as reações dos cidadãos de bem diante da exposição ‘Queermuseu’ e a performance ‘La Bête’ me permitiu postular que a resistência manifestada pelo cidadão de bem diante desses acontecimentos de arte não diz da qualidade ou do valor artístico das obras, mas aponta para o que há de mais insuportável na constituição sexual desses sujeitos que se ambicionam assepticamente íntegros”, relata Albuquerque.  

O método utilizado é o da própria investigação psicanalítica. De maneira mais específica, é possível dizer que esse método corresponde ao conceito de “apoio” que Freud trabalha, para sustentar o fato de que as pulsões sexuais inicialmente encontram-se apoiadas nos instintos para, só depois, adquirir autonomia.

Albuquerque conclui ressaltando que “a dissertação não resolve um problema ou questão. Ela coloca o problema/questão em evidência. Como faremos, enquanto sociedade, para sustentar uma conduta menos moralista e mais ética? Menos excludente e mais inclusiva? Menos preconceituosa e mais empática? Claramente, o discurso do cidadão de bem está na contramão desses caminhos”.

O psicólogo produziu uma versão mais resumida do trabalho no formato de um artigo, que já foi aceito e será publicado na Gerais: Revista Interinstitucional de Psicologia.

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