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15/03/2019 - 14:14 - Atualizado em 15/03/2019 - 14:33
Nascemos para a felicidade
Pesquisador da UnB fala sobre a importância de aprender a ser feliz
por Autor: 
Marco Cavalcanti

Wander: 'Temos indícios de que o mundo está menos feliz' (foto: Milton Santos)

 

Wander Pereira levou a “Felicidade” para a Universidade de Brasília (UnB). O objetivo da disciplina é ensinar aos estudantes a serem felizes no ambiente acadêmico, mas também na vida. O docente do Curso de Engenharia de Software (UnB) é doutor em Psicologia e mestre em Processos Comportamentais. Na UFU, ele participa das atividades de recepção aos ingressantes neste primeiro semestre letivo de 2019 com a palestra "Felicidade no Ambiente Educativo".

A felicidade é subjetiva, não é constante, mas é renovável, explica Pereira nesta entrevista ao Comunica UFU. Para ser feliz, segundo ele, não existe uma receita, mas é necessário buscar o autoconhecimento para cada pessoa saber o que a faz feliz. “Na sociedade do consumo, essa sociedade dos ‘likes’, a gente está perdendo esse espaço de reflexão”, adverte.

 

Como é essa disciplina “Felicidade”? Ela é uma disciplina diferente das outras?

Do ponto de vista formal, ela é uma disciplina comum. Ela obedece a todos os critérios acadêmicos e administrativos da Universidade de Brasília. Ela é uma disciplina com 60 horas, quatro créditos, a gente tem dois encontros semanais: toda terça e quinta, de 14h às 15h50, a gente tem que lançar uma menção (o aluno é aprovado ou reprovado). Porém, uma disciplina com esse nome não pode ser considerada uma disciplina normal, né? A repercussão que teve tem muito a ver com isso, com esse tema. Então ela é uma disciplina completamente diferente desse ponto de vista, do conteúdo dela, das experiências que nós vivenciamos dentro da disciplina, e também do ponto de vista dos objetivos dela. Porque quando você fala dos objetivos acadêmicos, você fala, basicamente, que o aluno tem que aprender alguma coisa relacionada à sua profissão, ao seu ofício, com aquele curso que ele escolheu. E a disciplina de felicidade tem uma aprendizagem voltada para a vida. Ela não é voltada para uma profissão específica.

 

A que ela se propõe?

Desde o começo - essa disciplina começou a ser ofertada no segundo semestre de 2018, embora já vinha sendo planejada desde o primeiro semestre de 2018 - as pessoas sempre me cobram qual é o resultado dessa disciplina, o objetivo dela. O objetivo dela é ensinar como os alunos podem ser felizes no ambiente acadêmico. Agora, eu não me comprometo com resultados objetivos, específicos, porque é um tipo de aprendizagem que ela não se dá só no nível cognitivo. Ela se dá muito no nível emocional. E o nível emocional é difícil de você mensurar com as métricas objetivas que nós temos hoje, da ciência e tal. Os resultados da disciplina não podem ser medidos durante o semestre ou sequer no próximo semestre. Ele tem que ser um efeito duradouro, é uma aprendizagem que o aluno pode levar para a vida dele, como profissional, como pessoa. Então, o objetivo da disciplina é transformar aquela alegria inicial de estar cursando uma universidade, de ser jovem, de estar em um curso superior, de estar convivendo com pessoas também jovens e aprendendo coisas interessantes, que isso se prolongue por toda a vida dele e transforme esse profissional naquele cara que vai usar a felicidade como instrumento na sua profissão. Então ele vai ser um difusor de felicidade. É mais ou menos isso que a gente tenta alcançar com a oferta da disciplina.

 

Como o senhor define felicidade?

É difícil definir a felicidade, por tratar-se de um tema muito subjetivo. Existem algumas definições na Filosofia. Os gregos associavam muito, por exemplo, a felicidade à boa vida, à boa sorte e tal. O que a gente sabe, do ponto de vista acadêmico, é que felicidade é um sentimento. E é um sentimento que mora no sujeito. A felicidade é subjetiva, a felicidade não é constante, porque se a gente encontrasse a felicidade que pudesse ser constante para sempre, a gente não sairia desse ponto. A gente ficaria ali, não evoluiria. E a felicidade é renovável. Então, ela tem essas três características fundamentais que são basilares: ela é subjetiva, ela não é constante, mas ela é renovável. Então, ao mesmo tempo que a felicidade vai, ela pode voltar, eu posso alcançá-la eu posso perdê-la.

Essa coisa de ser feliz é uma espécie de jogo de perde-ganha. O importante é você ter uma noção ampla de que você tem uma vida boa. Que sua vida é boa, que você é feliz. Curiosamente, se conquista com pequenas ações no dia-a-dia, mas com uma grande causa por trás, de um grande propósito. É a junção desse grande propósito. Encontrar o seu propósito na vida e fazer essas pequenas coisas no seu dia-a-dia, colocar isso em prática. A gente nunca é feliz só dentro da cabeça da gente. Felicidade é uma experiência coletiva, uma experiência social. Existem, obviamente, tendências na filosofia oriental de que felicidade é uma viagem para dentro de si mesmo. Aquela busca do autoconhecimento enquanto algo que está dentro de você. Mas, para nós ocidentais, essa ideia de você ser feliz dentro de você é muito difícil de ser alcançada. Então, para nós ocidentais a felicidade tem que ser vivenciada. Coletivamente. Tem uma pesquisa americana que eles acompanham, há 40 anos, as pessoas, perguntando sempre para elas ‘o que que te faz feliz?’, ‘o que realmente te faz feliz?’. E o resultado final dessa pesquisa mostrou que o que faz as pessoas felizes são relacionamentos humanos.

 

É impossível ser feliz sozinho, então?

É, vale muito essa máxima. Quando a gente fala da felicidade como uma coisa que não é constante é porque, às vezes, nós podemos estar tristes, ser tristes, ser infelizes. Esse jogo da vida, de estar triste em algum momento, ser infeliz em algum momento, ele é parte desse contexto de ser feliz. E estar sozinho também. Porque se a gente usar essa metáfora de ‘é impossível ser feliz sozinho’, como se eu me obrigasse a estar sempre com as pessoas, e eu sei que para muitas pessoas estar sempre com as pessoas é o que as torna infelizes.

Então, é preciso ter essa clarividência, essa inteligência de saber que a felicidade é uma experiência coletiva, mas a vivência dela, viver feliz, não é uma ditadura da coletividade. Você pode ser feliz, em alguns momentos, sozinho. A solidão, quando ela é uma escolha, ela torna você feliz. Quando a solidão é a falta de escolhas, então você vai ser fatalmente infeliz.

 

Os jovens, os universitários estão infelizes? Porque a necessidade dessa disciplina, desse tema, dentro da universidade?

De um modo geral, os jovens não estão mais infelizes do que qualquer outra parte da população. E nesse sentido, a gente tem alguns indícios de que o mundo está menos feliz. A Organização Mundial da Saúde tem dados que mostram que a saúde mental das pessoas no mundo está diminuindo, está caindo. E ao mesmo tempo, aumentando casos de doenças mentais, perturbações psiquiátricas, depressão, principalmente, ansiedade, comportamentos autolesivos. E o jovem, por estar vivendo uma faixa da vida que é feita de muitas incertezas, inseguranças, ele sofre mais com isso. Mas é difícil dizer se eles estão mais tristes, mais infelizes hoje, porque a gente não tem parâmetros muito concretos para comparar esse com dados históricos. O que a gente sabe é que as experiências infelizes estão mais visíveis. E na vida acadêmica, isso se manifesta de uma maneira muito clara. Quem é professor hoje sabe do que eu estou falando. Nós temos alunos muito infelizes na sala de aula, muito infelizes com sua vida, com sua profissão, com suas relações. Por isso é que a disciplina existe. Porque não é normal você viver para ser infeliz. Nós nascemos para a felicidade, isso é uma coisa bíblica, isso é uma coisa científica, isso é uma intuição que desde cedo nós temos. Se você pegar uma criança normal ela é sempre feliz, ela tem uma fluidez emocional, ela está sempre mais feliz do que infeliz.

 

O que causa a infelicidade?

São vários fatores. Nós temos aqueles fatores que são idiossincráticos, subjetivos, ou seja, fatores ligados à própria estrutura psíquica do estudante, a maneira como ele vê o mundo. Tem gente que tem uma tendência maior à depressão ou à negatividade. Existem estudos que mostram a influência genética dessas questões e tal.

Existem as questões ligadas ao contexto sócio-familiar, a um conflito de gerações muito claro - conflito de gerações sempre houve. Pais e filhos estão sempre ali brigando por coisas diferentes, são forças antagônicas. Mas esse antagonismo está muito evidente hoje. E os pais, em particular, não sabem o que fazer com as demandas dos seus filhos.

O contexto educacional. Nós estamos usando soluções antigas para problemas novos. A gente está continuando batendo com martelo, como se o problema fosse o prego. E os problemas são novos. Eu acho que a gente está perto de se deparar com uma nova geração de pessoas. Tal como houve a transformação do homem na passagem da Idade Média para Idade Moderna, aquele novo homem do Iluminismo, eu acho que nós estamos prontos, ou quase perto de termos uma nova geração de homens, de pessoas. Com uma estrutura psicológica sócio-comportamental diferente. Então, é preciso que os modelos educacionais avancem no sentido de atender a essas novas gerações.

Finalmente, as questões relacionadas à conjuntura. A conjuntura internacional e a conjuntura nacional não são favoráveis. Não tem coisa para dar mais infelicidade na juventude do que a falta de esperança, a falta de modelos. Aquela certeza que você vai conseguir alguma coisa na vida, você vai ter os seus sonhos, de certa maneira, possibilitados pelo contexto social que você vive, econômico que você vive. Isso também contribui para serem infelizes.

 

O que é preciso para ser feliz? Tem uma fórmula?

Uma fórmula que valha para todo mundo não tem não. Mas a gente sabe de algumas coisas. A gente sabe, por exemplo, que é preciso buscar o autoconhecimento. Se a felicidade é subjetiva, cada pessoa deve saber o que que faz sentido para ela. O que a torna feliz. E se ela conseguir encontrar minimamente os parâmetros dessa coisa que a faz feliz ou dessas coisas que a fazem feliz, ela tem que investir nisso. Existem estudos que mostram que algumas pessoas que são felizes têm algum nível de religiosidade, por exemplo. A felicidade está relacionada com a questão financeira de uma maneira muito superficial. Por exemplo, pessoas muito pobres ou que têm baixíssima condição econômica são menos felizes, por razões óbvias. É muito difícil você pensar na felicidade como uma coisa grande, um significado para sua vida, quando você tem que cuidar do que você vai comer, onde você vai dormir, o que você vai vestir. Mas, alcançado certo patamar econômico, não faz diferença você ter mais ou ter menos para ser feliz. Então, essa questão financeira, que a gente costuma associar muito, é a tal fórmula que eu falei. Os pais falam muito isso: ‘você precisa estudar para ser alguém’. Esse alguém, normalmente, é ter dinheiro, é ter sucesso na carreira. Ser alguém, não! Você precisa estudar para ser feliz.  Ser alguém é uma condição já dada, você já é alguém.

 

E quem se considera infeliz e espera um dia ser feliz, mas ‘sem fazer por onde’?

Isso vale para muita gente, o que eu vou falar. A felicidade só existe no agora. Não existe a felicidade do ontem, do amanhã. Porque tem muita gente que vive dizendo: ‘olha, naquele tempo, sim, era legal, quando eu era criança, quando eu morava com meu pai, quando eu tinha aquela…’ Então, eles ficam muito presos a uma felicidade que já passou. E a capacidade que esses eventos que foram felizes no passado de manter você com uma pessoa feliz, elas são muito pequenas. A capacidade é muito baixa.

Existem pessoas que vivem projetando a felicidade: ‘quando eu mudar de cidade, quando eu comprar um carro, quando eu me casar, quando eu me formar…’ Tem até um jargão, hoje em dia, que as pessoas falam: ‘sextou’. Sextou significa quando sexta chegar, eu vou ser feliz. Então, até sexta eu vou sofrer? Essa é uma escolha. Você não precisa sofrer até sexta. Você pode ser feliz segunda, terça, quarta... De certa forma, é uma opção. Como eu falei, é escolher um caminho.

Escolher o caminho da felicidade não é tão difícil. Obviamente passa pelo autoconhecimento. Por que eu me tornei uma pessoa infeliz? Se você não consegue fazer essa reflexão, você não vai saber encontrar os caminhos da felicidade.

Nós temos negligenciado muito a capacidade importantíssima de nós seres humanos, que é a capacidade da reflexão. A reflexão é uma condição especialíssima que a natureza, a evolução ou Deus - para quem acredita - deu ao homem. E na sociedade moderna, sociedade do consumo, essa sociedade dos ‘likes’, do ‘curtir’, do ‘reagir’, a gente está perdendo esse espaço de reflexão e, com isso, você não consegue entrar em contato com quem você é realmente, portanto, diminuindo sua capacidade de ser feliz.

 

Você é uma pessoa feliz?

Sou muito feliz, muito feliz. Eu tenho uma família maravilhosa, tenho filhos, estou numa profissão que tem uma capacidade de transformar vidas muito grande, eu estou nesse projeto da felicidade... então eu sou uma pessoa alegre, o que não me impede de ser mal-humorado, de às vezes estar meio deprimido, de estar meio puto com as situações, porque são contextos de existência da vida. A vida nos oferece diversas experiências. Boas e ruins. E é muito importante a gente abraçar as experiências ruins também. Como eu falei agora há pouco, o mundo está cercado de pessoas que estão reagindo às situações. E com situações ligadas à infelicidade, como por exemplo estar sozinho, estar triste, estar um pouco deprimido, as pessoas não têm mais tolerância. E é preciso preciso abraçar isso também. Se aprende muito com a solidão, se aprende muito com a dor. Então eu sou uma pessoa feliz. Com certeza.

 

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