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17/09/2019 - 14:38 - Atualizado em 17/09/2019 - 16:54
Núcleo se firma como rede de apoio e formador de profissionais mais humanizados
Serviço prestado por equipe multiprofissional da Universidade Federal de Uberlândia atende vítimas de violência sexual no Hospital de Clínicas
por Autor: 
Naiara Ashaia

Nuavidas busca atender integralmente das pacientes, com apoio psicológico e cuidados físicos. (Foto: Marco Cavalcanti)

Março de 2017. O Hospital de Clínicas de Uberlândia da Universidade Federal de Uberlândia (HCU/UFU) recebe uma recomendação do Ministério Público Federal (MPF) do município para, em um prazo de até 60 dias, adotar todas as medidas necessárias para estruturação do Serviço de Atenção às Pessoas em Situação de Violência Sexual.

A partir disso, um grupo de professoras e profissionais da saúde ligadas à Faculdade de Medicina (Famed) e à Faculdade de Direito (Fadir) da UFU, junto ao Hospital de Clínicas e ao Escritório de Assessoria Jurídica Popular (Esajup), se organizaram na formação de um núcleo, com objetivo de amparar o corpo clínico e a direção daquela instituição de saúde sobre o atendimento às vítimas de violência sexual, além de realizar essa ação de forma eficaz. O programa foi batizado de Núcleo de Atenção Integral a Vítimas de Agressão Sexual (Nuavidas).

Professora da Famed e atual coordenadora-geral do núcleo, Helena Borges Martins da Silva Paro conta que o Nuavidas nasceu de um atendimento dela em uma Unidade Básica de Saúde. Segundo a docente, durante uma aula prática com alunos do quarto período do curso de Medicina, uma paciente foi encaminhada aos seus cuidados, sob a justificativa de ser uma gravidez complicada. A moça havia sido vítima de um estupro, mas, como não registrou um boletim de ocorrência, foi informada que não poderia realizar o procedimento de aborto legal. Entretanto, Paro corrigiu esta informação, já que não é obrigatório o encaminhamento da polícia ao hospital para que a interrupção da gravidez seja feita.

A paciente foi encaminhada ao HCU. Se o atendimento fosse negado, ela mesma realizaria o procedimento. Segundo o Código Penal Brasileiro no Art. 128 do Decreto Lei 2848/40, o aborto realizado por médico nos casos de gravidez resultante de estupro e de risco à vida da mulher não é passível de punição. Por precaução, Paro recorreu à professora da Faculdade de Direito da UFU, Neiva Flávia de Oliveira. “O medo de sanções penais era inerente, se realmente eu fizesse algo fora da lei”, relata.

Assim, a rede começou a se formar, passando a ser composta por ginecologistas, pediatras, psiquiatras, psicólogas, enfermeiras, advogadas e assistentes sociais. “Depois disso, o núcleo cresceu; as pessoas que estudam sobre esses temas souberam dele e também quiseram participar”, narra a coordenadora.

Os atendimentos a vítimas de violência sexual começaram a acontecer, para acompanhamento e tratamento físico e psicológico após o abuso ou para a interrupção legal da gravidez. Em janeiro de 2018, o serviço passou a ser oferecido no Ambulatório de Ginecologia e Obstetrícia do HCU.

Ainda conforme Paro, o Nuavidas articula o cuidado para toda a rede de apoio e atenção, desde a saúde até o social e jurídico. “A meta é acolher e dar assistência integral a pessoas em situação de violência sexual, sejam elas mulheres, crianças, adolescentes ou homens, independente de orientação sexual e gênero”, frisa, acrescentando que o núcleo também realiza o pré-natal das mulheres que decidem continuar a gravidez e o acompanhamento de todas as vítimas.

 

Tripé universitário

Como o Nuavidas é um programa ligado à UFU, o núcleo também trabalha com pesquisa, extensão e ensino.

De acordo com a professora da Famed e coordenadora de Atenção à Saúde do núcleo, Renata Rodrigues Catani, os membros do Nuavidas iniciaram a produção de pesquisas para avaliar quantitativa e qualitativamente o serviço prestado. “O objetivo é melhorar internamente e, ao mesmo tempo, expandir e unificar com outros serviços”, afirma.

A professora Helena Paro aponta que a missão na área de extensão e ensino atinge tanto os pacientes quanto o atendimento primário. “Cuidar da mulher e também nos responsabilizar por toda qualificação, não apenas na região. Somos uma universidade federal e entendemos a responsabilidade de levar o que a gente sabe para as pessoas de fora”, completa.

Para Catani, na área de ensino a intenção é proporcionar experiência e sensibilizar os alunos que acompanham os atendimentos que acontecem ali. Paro reforça que o núcleo busca incentivar discussões sobre o tema da violência sexual na graduação e em âmbito regional e nacional.

 

Aprendizado

Discentes a partir do 9º período podem integrar o núcleo. (Foto: Alexandre Costa)

Desde a implementação do núcleo, residentes de Medicina que estejam no terceiro ano, alunos da disciplina de “Saúde Coletiva II”, do 12º período e do 9º ao 11º período, matriculados em ”Internato em Ginecologia e Obstetrícia” passam pelo Nuavidas. “A importância de colocar a graduação dentro do núcleo é para ter uma quebra de tabus entre os estudantes também”, opina Paro.

Renata Catani destaca que no núcleo os alunos entendem o papel do médico no atendimento a vítimas deste tipo de crime: “O objetivo é exatamente trazer para eles o que não tivemos na nossa formação, mostrar como a gente faz esse cuidado com o paciente.”

Cursando o 12º período de Medicina na UFU, Bruna Carolina de Oliveira passou por essa experiência. Ela comenta que nas disciplinas do curso é estudado sobre o aborto legal, a partir de debates éticos e filosóficos sobre o código de ética da profissão, abordando as questões legais. “Eu me lembro que uma vez perguntei o que o Nuavidas faz de verdade, o que acontece com o paciente que entra nele. Então, me explicaram que a vítima chega aqui e recebe um encaminhamento para psiquiatra e assistente social. Ou seja, fazemos tudo o que ele precisa e em todos as áreas”, resume.

Para Oliveira, vivenciar o fluxo de atendimento no núcleo proporciona também um ganho acadêmico. “Temos o privilégio de um centro de referência no tratamento de vítimas de violência sexual ser aqui na UFU, com profissionais que trabalham no Nuavidas e são docentes. Por isso, temos a possibilidade de nos explicarem os atendimentos de forma didática”, ressalta.

A estudante declara que sua experiência no núcleo fez com que ela aprendesse, mesmo se colocando no lugar da paciente, a medir a emoção e compaixão pela história e agir como profissional. “Eu acho que a gente tem que ser confrontado e o Nuavidas serve também para isso, não só para quem é mulher, mas para qualquer profissional de saúde”, argumenta.

Helena Paro revela que o contato com as pacientes, vendo a transformação delas após o acompanhamento, deu sentido à sua vida profissional. “Essas mulheres, o Nuavidas, dar assistência a elas; tudo isso me trouxe de volta um propósito profissional muito importante”, descreve.

 

Perspectivas

Conforme a coordenadora de Atenção à Saúde do Nuavidas, Renata Catani, um dos desafios do núcleo para o futuro é estreitar o vínculo com as redes de apoio primárias, fortalecendo essas pessoas para que estejam preparadas para cuidar das vítimas.

A coordenadora-geral, Helena Paro, concorda e enfatiza que é necessário melhorar a interlocução com todos os pontos de apoio. “Os nossos desafios são uma integração maior com a rede de apoio, não só com a rede de saúde, mas a rede de segurança pública”, destaca. Já a curto prazo ela ressalta que o principal desafio é melhorar as políticas públicas disponíveis, discutindo melhor as leis de proteção a mulheres.

 

>>> Leia também:

HCU começa a oferecer coleta de vestígios em atendimentos para vítimas de violência sexual

 

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