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29/10/2019 - 14:31 - Atualizado em 01/11/2019 - 12:10
Qual a relação da nutrição com o câncer de mama?
Estudo da UFU apresenta resultados para saúde e bem-estar de mulheres que passam por quimioterapia e/ou hormonioterapia
por Autor: 
João Pedro Rabelo

 

Yara Maia coordena os trabalhos do BioNut nos programas de pós-graduação em Genética e Bioquímica e em Ciências da Saúde. (Foto: Arquivo da pesquisadora)

 

Estamos no mês de conscientização sobre prevenção e tratamento do câncer de mama no Brasil, o “Outubro Rosa”. Segundo o Ministério da Saúde, 16.724 brasileiras morreram em virtude do câncer de mama em 2017. Para o ano de 2019, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima quase 60 mil novos casos da doença.

O câncer é a denominação dada a um grupo de mais de 100 doenças que têm em comum o crescimento descontrolado de células que invadem tecidos e órgãos de maneira agressiva, podendo gerar tumores que podem se espalhar por outras regiões do corpo. Grupos de pesquisa como o de Biologia Molecular e Nutrição (BioNut) tem realizado, na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), pesquisas que visam a preencher lacunas no conhecimento e que possam refletir em melhorias na qualidade de vida e sobrevida das mulheres com câncer de mama submetidas aos diferentes tipos de tratamentos. 

Os trabalhos do BioNut são coordenados pela professora Yara Cristina de Paiva Maia, do curso de Nutrição na Faculdade de Medicina (Famed/UFU) e dos programas de pós-graduação em Genética e Bioquímica (PPGGB) e em Ciências da Saúde (PPCSA).

 

As relações entre o câncer e a alimentação 

O BioNut realiza, desde 2011, pesquisas voltadas ao estudo do câncer com enfoque na Nutrição e na Biologia Molecular. Entre 2014 e 2015, a equipe desenvolveu projetos de pesquisa a partir de um estudo com 55 mulheres diagnosticadas com câncer de mama e indicação de quimioterapia no Setor de Oncologia do Hospital de Clínicas de Uberlândia (HCU/UFU).

No estudo, intitulado “Sensações relacionadas à ingestão alimentar em pacientes oncológicos submetidos à quimioterapia”, foram acompanhadas mulheres durante um período entre quatro e seis meses, de acordo com o regime quimioterápico. As avaliações foram realizadas em três momentos diferentes da quimioterapia: após a administração do primeiro ciclo, após a administração do ciclo intermediário e após a administração do último ciclo.

Segundo Maia, a pesquisa chegou a importantes resultados para a saúde e o bem-estar de mulheres diagnosticadas com câncer de mama que passaram ou ainda passarão por sessões de quimioterapia. Foi constatada, por exemplo, a piora da qualidade da dieta e do estado nutricional em pacientes durante o tratamento. Houve redução do consumo de frutas e vegetais, aumento do índice de massa corporal e de circunferência da cintura.

Os resultados também apontaram para efeitos adversos provocados pela quimioterapia nas relações com o alimento. Maia relata que, “por ser um tratamento sistêmico, é frequente a ocorrência de efeitos adversos como vômito, boca seca, diarreia, constipação, os quais geram impacto na alimentação”. Ainda foram identificados outros sintomas, como náusea, alteração do paladar e do sentimento de prazer alimentar. 

 

As pacientes com câncer de mama que faziam um maior número de refeições ao longo do dia apresentaram melhor estado nutricional, com maior consumo de frutas, vegetais, leguminosas, cereais integrais e melhor qualidade da dieta total durante a quimioterapia. (Foto: Freepik)

 

Até a relação individual do paciente com o alimento pode mudar. “O apetite geral ao longo do tratamento aumentou, mas alguns alimentos passaram a ser menos preferidos. Houve redução da preferência e a aversão por alguns grupos de alimentos, mas não necessariamente o consumo”, esclarece a professora.

Outro impacto refere-se ao apetite como indicador de qualidade de vida. As mulheres com maior capacidade de apreciar a refeição tiveram melhores funções social e perspectiva de vida. Quanto maior o relato de dor, maior o apetite por alimentos amargos e ricos em amido. Já o desejo pelo consumo de sucos aumentou à medida que os relatos de dor e fadiga eram maiores.

Durante o tratamento, a dieta também se tornou mais pró-inflamatória, ou seja, uma dieta que favorece a inflamação crônica. Isso esteve relacionado à redução do consumo de frutas e vegetais, bem como ao aumento do consumo de cereais e açúcares simples. As mulheres com maior gordura na região abdominal apresentaram também uma dieta mais pró-inflamatória. 

Levando em consideração que o aumento desse perfil inflamatório apresentado na dieta foi causado pela modificação no consumo alimentar, as recomendações incentivam a adoção de uma dieta com qualidade nutricional adequada e mais anti-inflamatória. Os resultados dessa prática apontam para a melhoria do prognóstico do tratamento, a aceleração da recuperação da doença, redução do risco de reincidência da enfermidade e até do surgimento de outras doenças a partir da inflamação crônica. 

As pacientes com câncer de mama que faziam um maior número de refeições ao longo do dia apresentaram melhor estado nutricional, com maior consumo de frutas, vegetais, leguminosas, cereais integrais e melhor qualidade da dieta total durante a quimioterapia. A adoção de uma dieta de melhor qualidade e um estado nutricional adequado são recomendados e incentivados nesse tratamento.  

A pesquisa ainda indicou que o sobrepeso está associado a fatores antioxidantes e inflamatórios. As mulheres submetidas à quimioterapia também apresentaram perfil inflamatório plasmático distinto daquelas não submetidas ao tratamento. O perfil inflamatório plasmático é o nível de biomarcadores no sangue que sinalizam a inflamação.

Maia destaca a importância do acompanhamento por profissionais de saúde, em especial o nutricionista, fornecendo orientações para que a alimentação e o estado nutricional se mantenham saudáveis, contribuindo para melhor recuperação, qualidade de vida e redução do risco de reincidência.

O desenvolvimento da pesquisa contou com o financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Outras pesquisadoras da UFU que participaram do estudo foram Eduarda Marinho, Isis Custódio, Isabela Ferreira, Letícia Santos, Alinne Faria, Mariana Lima, Cristiana Gontijo e Cibele Crispim. A pesquisa teve ainda a colaboração de Maria del Carmen B. Molina (Universidade Federal do Espírito Santo), Carlos Eduardo Paiva (Hospital de Amor/ Fundação Pio XII), Taísa Pereira (University of the Americas Puebla, Puebla-México), Nitin Shivappa e James R. Hebert (University of South Carolina, Columbia-USA).

 

Do acompanhamento nutricional à hormonioterapia

A partir dos estudos nutricionais e dos resultados que foram obtidos, o BioNut desenvolveu outro projeto de pesquisa para analisar se os efeitos da quimioterapia continuariam presentes na fase de hormonioterapia, tratamento que frequentemente é indicado após a "quimio". Intitulado “Relação entre os perfis nutricional, dietético e bioquímico e a presença de complicações advindas do uso de inibidores de aromatase em mulheres com câncer de mama: um estudo prospectivo”, o trabalho acompanhou mulheres com câncer de mama durante três anos, de 2016 a 2018, e também foi orientado pela professora Maia.

Durante o uso de inibidores aromatase, houve alteração da composição corporal e dos parâmetros antropométricos. Embora o índice de massa corporal não tenha se alterado durante o tratamento, ele foi indicativo de excesso de peso, o que, juntamente com a alta porcentagem de gordura (maior que 35%), revela estado nutricional de risco. Além disso, as participantes do estudo apresentaram consumo abaixo do recomendado para vários nutrientes e acima do recomendado para gordura saturada. 

As mulheres com diagnóstico de câncer de mama possuem maiores fatores de risco cardiovascular e maior risco de mortalidade por doenças cardiovasculares do que a população feminina em geral. Os fatores de risco cardiovasculares importantes são o excesso de peso, a adiposidade abdominal, dieta inadequada, aumento de colesterol e triglicerídeos no sangue ou a diminuição dos níveis de HDL (o “bom colesterol”) que contribuem para a aterosclerose (formação de placas de gordura nas artérias que dificultam a passagem do sangue).

 

Entre 2014 e 2015, a equipe desenvolveu projetos de pesquisa a partir de um estudo com 55 mulheres diagnosticadas com câncer de mama e indicação de quimioterapia. (Foto: Arquivo da pesquisadora)

 

Esses resultados reforçam a importância de orientações nutricionais destinadas a melhorias da composição corporal e dietética, possibilitando reduzir a inflamação crônica e, consequentemente, o risco cardiovascular, com impacto positivo para a saúde dessas mulheres.

Segundo Maia, “essa é uma das expectativas do grupo de pesquisa, o qual tem trabalhado ativamente, já há alguns anos, para ter resultados práticos que possam beneficiar tanto a comunidade local quanto a científica”. O BioNut tem outros projetos de pesquisa em desenvolvimento e análise que trabalham com a melhoria da saúde dessas mulheres. Os resultados serão publicados assim que estiverem concluídos. 

O projeto foi desenvolvido pelas pós-graduandas Isis Custódio, Fernanda Mazzutti e Mariana Lima, pelas nutricionistas (egressas da UFU) Kamila Carvalho, Débora Alves e Juliana Chiareto, pela professora e oncologista Paula Philbert L. Canto (Famed e HCU/UFU) e Carlos Eduardo Paiva (Hospital de Amor/ Fundação Pio XII).

 

Conexão com a Alemanha

Em setembro, a professora Maia viajou até Stuttgart, na Alemanha, com o intuito de contribuir para a internacionalização da UFU por meio de uma ação articulada e convergente entre os programas de pós-graduação em Genética e Bioquímica (PPGGB) e em Ciência da Computação (PPGCO) daqui com a universidade de lá.

A viagem teve o objetivo de promover trabalhos conjuntos de pesquisa relativos ao projeto desenvolvido na UFU em parceria com o Hospital de Amor, em Barretos. Segundo Maia, os indicadores tradicionais que determinam o estágio do tumor, o grau de comprometimento das células normais e fatores genéticos não são suficientes para auxiliar em um diagnóstico antecipado, que proporcione um tratamento preditivo. Por isso, a professora ressalta, na prática clínica, a necessidade de buscar estratégias como a identificação de novos marcadores ou a criação de novos modelos prognósticos de sobrevida.

 

A viagem à Alemanha teve o objetivo de estabelecer uma parceria em busca de ampliar os estudos sobre cânceres avançados. (Foto: Arquivo da pesquisadora)

 

Dessa forma, o projeto se justifica pela importância da busca de alternativas que caminhem na direção de um prognóstico para cânceres avançados, a partir de um método preciso e aplicável que ajude na escolha do tratamento. “Tais marcadores serão usados para a criação de um modelo preditivo implementado em um sistema de software almejando estimar, com precisão, a sobrevida do paciente com tumor sólido avançado”, explica Maia. Esse sistema também será capaz de recomendar terapias e demais condutas multiprofissionais que visem à qualidade de vida do paciente.

Na viagem, Maia teve contato com o grupo de pesquisa do professor alemão Roland Kotermann, referência no processo de produção e funcionalização de anticorpos biespecíficos relacionados ao câncer. A Alemanha foi escolhida justamente pelo fato de Kotermann e seu grupo terem realizado a recente descoberta de um novo anticorpo que inibe funções em células cancerígenas.

 

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