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10/12/2019 - 15:29 - Atualizado em 13/12/2019 - 16:27
Por que a nossa vida depende da presença das abelhas?
Pesquisadoras da UFU demonstraram que, ao introduzir esses insetos nas plantações, elas aumentaram o número de sementes e a qualidade dos tomates
por Autor: 
Portal Comunica UFU
Por: 
Thiago “Zina” Crepaldi*

 

Néctar e pólen, presentes nas plantas com flores e frutos, são ingredientes essenciais do café da manhã das abelhas. Porém, numa realidade em que não existem esses alimentos para elas, esses animais deixariam de existir. Por consequência, isso afetaria o nosso típico café da manhã, que conta com pãozinho, manteiga, café, leite, suco e frutas, restando apenas um terço dele.

Isso aconteceria porque, visitando flor a flor para se alimentarem do néctar (fonte de carboidratos e sais minerais) e do pólen (fonte de proteínas, vitaminas, sais minerais e lipídeos), as abelhas acabam prestando um serviço de polinização, que permite a reprodução de diversas espécies de plantas que estão ligadas ao que consumimos diariamente. Na polinização, esses insetos levam parte do pólen de uma flor – que contém células reprodutivas masculinas – ao encontro do ovário da mesma flor ou de outra flor da mesma espécie (polinização cruzada). Esse encontro garante o sucesso reprodutivo das plantas. O pólen que sobra é transportado para dentro da colmeia para ser armazenado em potes, que servirão de alimento tanto na fase larval quanto na fase adulta.

Perda de biodiversidade coloca em risco o bem-estar e a saúde das abelhas. Na imagem, ninho de abelha Jatai (Tetragonisca angustula) (Foto: Thiago Zina Crepaldi)

Infelizmente, o que se tem acompanhado nas últimas décadas é o declínio de populações de abelhas. Episódios nos Estados Unidos, Europa e, recentemente, no Brasil têm preocupado pesquisadores, apicultores (criadores de abelhas com ferrão) e meliponicultores (criadores de abelhas sem ferrão). Segundo a professora da Pós-graduação em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Fernanda Helena Nogueira-Ferreira, o sumiço das abelhas provavelmente está relacionado a múltiplos fatores.

“O processo de desmatamento de áreas naturais e as queimadas, que resultam em menos flores. E, sem flores, as abelhas ficam sem o que comer. Além disso, as monoculturas e o uso desenfreado de agrotóxicos afetam diretamente as abelhas”, explica a pesquisadora, que há quase 30 anos dedica-se ao estudo das abelhas.

Nogueira-Ferreira comenta ainda que as abelhas em geral, principalmente as abelhas sem ferrão (espécies nativas do Brasil), são muito sensíveis a essas mudanças ambientais causadas pelo ser humano. “Esses desequilíbrios no ambiente deixam as abelhas debilitadas e fracas. A desnutrição afeta a imunidade, por consequência elas ficam mais suscetíveis aos predadores e às doenças causadas por vírus e fungos. Por fim, não resistem, morrem”, lamenta.

 

Abelha Canudo (Scaptotrigona depilis) em processo de enxameação (divisão do ninho). Essa espécie é boa para se dividir e ocupar colmeias vazias. (Imagem: Thiago Zina Crepaldi)

A morte das abelhas tem consequências para nós. Uma frase atribuída ao cientista Albert Einstein previa que: “se as abelhas desaparecerem da face da Terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência. Sem abelhas não há polinização, não há reprodução da flora, sem flora não há animais, sem animais, não haverá raça humana”. E Einstein pode ter tido razão. Segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), das 141 espécies de plantas que utilizamos na nossa alimentação, cerca de 60% (85 espécies) dependem, em certa medida, das abelhas para serem produzidas. No mundo, esse valor chega a 75%, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Assim, o alerta para o desaparecimento das abelhas não se restringe geograficamente e se justifica pelo fato de elas serem as principais responsáveis pela polinização da maioria dos ecossistemas do planeta. Um estudo de mestrado da UFU realizado por Bárbara Matos Guimarães e orientado por Fernanda Helena Nogueira-Ferreira, no Programa de Pós-graduação em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais (PPGECRN) da UFU, em 2018, comparou a eficiência das abelhas mandaçaia (Melipona quadrifasciata) como polinizadoras na agricultura convencional de tomate, na qual se utilizava agrotóxicos no manejo, e no sistema agroflorestal (é um sistema de plantio de alimentos que é sustentável em meio a floresta) de berinjela. 

Pesquisadores ficaram de campana para estimar a diversidade e comportamento de abelhas visitantes das flores no cultivo de tomate na zona rural de Araguari-MG. (Foto: Arquivo pessoal)

Guimarães destaca as descobertas desta pesquisa. “Observamos que, ao introduzirmos as abelhas nas plantações, elas aumentaram o número de sementes dos tomates devido à polinização. Mas, por conta do uso excessivo de agrotóxico no cultivo, os ninhos foram afetados e começaram a definhar”. A pesquisadora acrescenta: “imediatamente retiramos as colônias da área e as levamos para análises laboratorial”.

A utilização de agrotóxicos é um dos fatores responsáveis pela morte das abelhas e a destruição das colmeias. (Foto: Thiago Zina Crepaldi)

Em laboratório, a pesquisadora analisou a massa de pólen, que estava dentro das colmeias afetadas pelos agrotóxicos, e detectou a presença de metais pesados. “Essa contaminação deixou as abelhas operárias desnorteadas e aumentou a mortalidade delas. Em consequência disso, as colônias foram enfraquecendo e diminuindo a postura [de ovos pela abelha rainha], até morrer a colônia inteira”, relata.

 

Ciência cidadã 

 

Pesquisadoras do Laboratório de Ecologia e Comportamento de Abelhas (LECA-UFU) apostam na educação como o caminho para a preservação das abelhas. (Foto: arquivo pessoal)

“Podemos mudar esse quadro por meio da educação. Cativando as pessoas para conhecer as abelhas, porque assim elas vão poder cuidar e exigir políticas públicas de conservação”, diz, confiante, Bárbara Matos Guimarães, hoje doutoranda do PPGECRN. É com esse objetivo que a pesquisadora busca despertar, em crianças e adolescentes de escolas públicas de Uberlândia, que é importante preservar e conservar as abelhas. 

Para isso, ela tem trabalhado na perspectiva da Ciência cidadã, que conta com a participação da comunidade no estudo das abelhas nos jardins das escolas, permitindo a proximidade com os insetos e, consequentemente, a sensibilização para as questões da conservação e da preservação. “É evidente a importância das abelhas para nossa vida, mas mudar a mentalidade e a atitude das pessoas em relação às abelhas é o princípio. E, a partir disso, é que nós vamos ampliando para o poder público”, completa.

 

Abelhas popularmente chamadas de Uruçu (Melipona rufiventris).  Ao abrir a colmeia, os potes de mel se abrem e elas bebem. (Imagem: Thiago Zina Crepaldi)

 

*Thiago "Zina" Crepaldi é estudante do curso de Graduação em Jornalismo da UFU

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