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14/05/2020 - 13:42 - Atualizado em 26/05/2020 - 12:13
Violência na estrada interfere em condutas, saúde física e mental dos caminhoneiros
Conheça o estudo da UFU desenvolvido por pesquisadores da Faculdade de Medicina
por Autor: 
Portal Comunica UFU
Por: 
Marcelle Aparecida de Barros Junqueira*

 

Foto: Marco Cavalcanti

 

Com o advento da pandemia de Covid-19, uma das principais recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) é o chamado isolamento/distanciamento social. Contudo, alguns segmentos profissionais são considerados essenciais para o enfrentamento da doença, entre eles, os motoristas de caminhão, que desempenham um papel fundamental na distribuição logística de produtos no país.

Os caminhoneiros representam uma das maiores forças de trabalho no Brasil e são responsáveis por mais de 60% do transporte de cargas. Contudo, entre os anos de 2007 e 2018, ocorreram 1.721.609 acidentes somente em rodovias federais brasileiras. Segundo a Confederação Nacional de Transportes (CNT), nesse período foram registrados 756.732 acidentes com vítimas, uma média de 173 acidentes com vítimas por dia, ou sete acidentes por hora; e 33,1% de todos esses acidentes tinham envolvimento de pelo menos um caminhão. 

As principais causas dos acidentes foram relacionadas à falta de atenção de condutores e pedestres (29%), fator humano associado à fiscalização e/ou infraestrutura viária (21,9%), fator humano não associado à fiscalização e/ou infraestrutura viária (10,8%), problemas com os veículos (5,2%) e o uso de álcool ou outras substâncias (3,5%).

Não obstante, vários estudos indicam que o cotidiano desses motoristas é altamente estressante, com longas jornadas de trabalho, falta de acesso a serviços de saúde, pressão para cumprimento de prazos de entregas de mercadorias, más condições de estradas, falta de descanso, longas distâncias percorridas e outras.

A partir desse contexto, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) realizou, entre o fim de 2018 e o início de 2019, uma pesquisa junto a 235 motoristas de caminhão que trafegavam em rodovias federais na região e pararam no serviço de conveniência no município, para conhecer alguns aspectos da saúde física e mental destes profissionais.

Uma descoberta importante se refere à exposição prévia a eventos traumáticos e/ou violentos vivenciados pelos motoristas, tais como acidentes de trânsito – incluindo aqueles que resultaram em vítimas – e ter sido vítima de assalto: os motoristas que cometeram erros e lapsos ao dirigir apresentaram de duas a três vezes mais chances de se envolver em acidente com vítima ou de já terem sido assaltados; ademais, as chances foram consideravelmente aumentadas entre os motoristas que dirigiam após ter bebido muito e cometerem erros, lapsos e violações. Nesse sentido, outro ponto que também se destacou foi o fato de que os motoristas que tinham histórico de violações no trânsito apresentaram chances potenciais aumentadas para sintomas de ansiedade e sono prejudicado.

Com relação a condições de saúde crônicas, especialmente as doenças cardiovasculares, os resultados do estudo mostraram que os motoristas que vivenciaram acidentes tinham quase quatro vezes mais chances de terem doença vascular periférica. O fato de ter sido assaltado também aumentou as chances em seis vezes para o motorista portar doença vascular periférica, mais que dobro de ter obesidade e quatro vezes mais chances de possuir nefropatias.

A equipe de pesquisadores continua analisando esses resultados na busca de concatená-los a achados de outros estudos da mesma natureza. Contudo, já se pode sugerir que a exposição a eventos traumáticos e violentos, pelos motoristas de caminhão, não só interfere em potenciais desfechos de óbitos nas estradas, como também parece influenciar nas condições de saúde mental e física desses trabalhadores.

 

*Marcelle Aparecida de Barros Junqueira é docente do curso de Enfermagem da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia (Famed/UFU). É professora permanente do Programa de Pós Graduação em Saúde da Família e do Programa de Pós-Graduação em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador.

 

A seção "Leia Cientistas" reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). São produzidos por professores, técnicos e/ou estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A publicação é feita pela Divisão de Divulgação Científica da Diretoria de Comunicação Social (Dirco/UFU), mas os textos são de responsabilidade do(s) autor(es) e não representam, necessariamente, a opinião da UFU e/ou da Dirco. Quer enviar seu texto? Acesse: www.comunica.ufu.br/divulgacao. Se você já enviou o seu texto, aguarde que ele deve ser publicado nos próximos dias.

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