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25/07/2020 - 02:32 - Atualizado em 27/07/2020 - 16:41
Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha: resistência e luta
Quem são as mulheres negras do seu cotidiano?
por Autor: 
Naiara Ashaia

25 de julho. Para muitos, mais um dia normal. Para mulheres negras, um momento de rememorar, de refletir sobre sua história, seu lugar, sobre como são vistas e ouvidas.

Em 2 de junho de 2014, foi instituído pela então presidenta, Dilma Rousseff, a Lei nº 12.987, tornando 25 de julho o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Tereza foi uma líder quilombola que viveu durante o século 18 e foi símbolo de resistência na luta contra a escravização. Quando seu companheiro morreu, Tereza tornou-se a rainha do quilombo Quariterê, no Mato Grosso. Durante sua liderança, criou um parlamento local, organizou a produção de armas, a colheita e o plantio de alimentos, além de chefiar a fabricação de tecidos, que eram vendidos nas vilas próximas. A comunidade, que também contava com indígenas entre seus componentes, resistiu à escravidão por duas décadas, até que em 1770 o quilombo foi destruído por Luiz Pinto de Souza Coutinho, governador do Mato Grosso.O dia não foi escolhido por acaso pela então presidenta. Em 1992, foi organizado o primeiro Encontro de Mulheres Negras Latinas e Caribenhas, em Santo Domingos, na República Dominicana. Nele, foi discutido a questão educacional, maternidade e oportunidades profissionais, o machismo, racismo e formas de combatê-los. Do encontro, nasceu também o Dia da Mulher Negra Latina e Caribenha, 25 de julho, data que foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas ainda naquele ano.Para a técnica em assuntos educacionais na Diretoria de Estudos e Pesquisas Afro-raciais (Diepafro) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Jane Maria dos Santos Reis, este dia não é de comemoração, mas sim de resistência e combate ao racismo ou qualquer outra forma de opressão direcionada a mulher negra. Ela ressalta que a data homenageia o percurso dessas mulheres no Brasil. “Não é o dia de Tereza de Benguela, é o dia da mulher negra, da mulher negra latino-caribenha. É um dia que se destacam as batalhas travadas por todas as mulheres negras”, aponta a técnica.

“A mulher negra é muito associada a empregada doméstica, a mulata ‘gostosa’, ao ícone do samba. Não, somos muito mais que isso. As mulheres negras são cientistas, são trabalhadoras, são juristas”, afirmou Jane Reis. Pâmela Camargo, auxiliar de limpeza na UFU, conta que sente esse estereótipo sendo repetido diariamente: “No ponto de vista das pessoas eu trabalho em um lugar ‘inferior’ por eu ser auxiliar de limpeza, só que não causa nenhum espanto por eu ser uma mulher negra naquela função”. Ela relata ainda, que isso é diferente quando se trata de colegas que possuem pele clara, pois, para elas, é questionado o porquê de não tentarem outro emprego. Camargo enfatiza que ter uma data que evidencia a mulher negra é importante para construção social e cultural brasileira. Resgatar e demonstrar seus traços, ressaltam quem a mulher negra é.

Para Camargo, a mulher negra em cargos de destaque causa incômodo. A aluna do curso de Direito da UFU, Lisneide Costa, afirma que vivemos em uma sociedade que não reconhece a mulher negra como gente. Na sua visão, a construção do que é ser mulher negra, inicialmente, não foi definido pela própria mulher negra.

“Sou mulher negra numa universidade federal estudando Direito, isso contraria muitas estatísticas, e ainda que eu seja exceção à regra, conhecendo bem os espaços que são relegados às mulheres negras de pele escura nessa sociedade, não me sinto de forma alguma em posição de privilégio”, conta Costa. Para ela, dizer que o acesso à educação de qualidade não é direito, mas sim privilégio, reforça que mulheres negras não devem sonhar e lutar para ocupar este espaço.

Sobre ser discente negra em uma universidade federal, Costa afirma que inicialmente acreditava que não se adaptava a vivência e experiência acadêmica. Agora, levando em consideração o racismo estrutural vivido na sociedade, a aluna tem vontade de permanecer. “O que me inspira neste desafio é a certeza de que, sob o resguardo do princípio da igualdade, ainda é possível entrever uma universidade mais inclusiva e diversa do que temos”, finaliza.

Jane Reis conta que seu sonho é ver uma reitora negra na UFU, ver pró-reitoras e diretoras negras. “Eu, Jane, ser uma das poucas mulheres negras tituladas que estão na reitoria da UFU é motivo para a gente lembrar que precisamos lutar por cotas, por direitos humanos fundamentais, por questão de permanência dentro da universidade, concursos públicos onde as vagas sejam ocupadas por estas mulheres negras. As mulheres negras estão invisíveis dentro desses espaços”, completa.

“Independentemente dos seus costumes, da sua religião, do seu trabalho, toda mulher negra latino-caribenha, toda mulher negra brasileira, é um complexo de força e resistência muito grande e é isso que temos que enaltecer nesta data”, evidencia Reis.

25 de Julho é dia de lembrar de Tereza de Benguela, Sueli Carneiro, Lélia Gonzales, Leci Brandão, Chiquinha Gonzaga,Dandara, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Mariele Franco. Dia de lembrar de Jane, de Pâmela, de Lisneide, de Naiara, de Jussara. Dia de lembrar. Lembrar de tantas outras que tiveram suas vozes caladas, suas histórias apagadas. Lembrar de algumas que são vistas, mas ainda subjugadas. Lembrar que como diz Luedji Luna, somos um corpo, um ser, que tem cor e história, somos nossa própria embarcação. E estamos aqui. “Je suis ici, ainda que não queiram”.

 

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